N O
T Í C
I A - 16/12/2013
O eSocial requer mudanças além da folha
Parte do SPED (Sistema
Público de Escrituração Digital), o eSocial será um avanço na sistemática de
obrigações acessórias.
O país está às vésperas
de uma nova mudança regulatória importante: o eSocial. A partir de 2014 todos
os empregadores brasileiros serão obrigados a registrar as informações
trabalhistas, previdenciárias, tributárias e fiscais relacionadas à contratação
de mão de obra com ou sem vínculo empregatício por meio desse novo sistema
eletrônico.
Parte do SPED (Sistema
Público de Escrituração Digital), o eSocial será um avanço na sistemática de
obrigações acessórias. As informações ficarão armazenadas no ambiente nacional
do eSocial, possibilitando que todos os órgãos envolvidos no projeto –
Ministério do Trabalho e Emprego, Ministério da Previdência Social, Instituto
Nacional do Seguro Social – INSS, Ministério da Fazenda, Receita Federal do
Brasil e Caixa Econômica Federal – tenham acesso a elas.
Ao mesmo tempo em que
reduz a burocracia simplificando o envio das informações aos diversos órgãos
governamentais, o eSocial também facilita a fiscalização das obrigações
trabalhistas, previdenciárias e fiscais por meio do cruzamento eletrônico e
verificação de dados.
O eSocial tende a
contribuir pouco para melhorar a competitividade e a facilidade para fazer
negócios no Brasil
O grande desafio para as
empresas não é apenas cumprir com o envio das informações a partir do próximo
ano, mas garantir a qualidade da informação e manter 100% da operação em
conformidade com a nova regulação. O mais preocupante é que, embora algumas
empresas já tenham iniciado projetos de adequação às novas regras, a maioria
ainda não tomou providências. De acordo com uma pesquisa da Receita Federal,
70% das empresas não possuem um projeto interno ou profissionais dedicados à
adequação ao eSocial.
Entre as empresas
pesquisadas, 82% entendem que o departamento de recursos humanos é o
responsável pelas informações requeridas pelo eSocial. Na realidade, o esforço
necessário vai além dos ajustes nos sistemas de folha de pagamento e em outros
processos de RH. Para atender os requisitos, diversos processos de gestão de
pessoas precisam ser readequados, envolvendo áreas como saúde, segurança e meio
ambiente, jurídico, gestão de terceiros etc, além dos impactos na operação e no
modelo de negócios da empresa.
Imagine o caso de uma
empresa do varejo que precise contratar muitos empregados por prazo determinado
para o período de fim de ano. Antes do primeiro dia de trabalho, os temporários
devem estar cadastrados no sistema com todas as informações necessárias para o
cumprimento das obrigações trabalhistas, previdenciárias, sociais e fiscais.
Isto exigirá maior planejamento nas contratações e orientação adequada para
garantir a correta entrega dos documentos para a contratação em tempo hábil,
bem como para seu desligamento ao fim do período.
Diante desse cenário, não
causa surpresa que 41% das empresas pesquisadas acreditem que terão mais
dificuldade em lidar com as mudanças culturais e 38%, com os processos internos
e governança. Para 60% das empresas, o principal motivo de dificuldades virá
das distintas origens dos dados e para 21% da qualidade e do conteúdo e das
informações.
Além das possíveis falhas
nas bases de dados e de erros operacionais na geração das informações,
eventuais não conformidades com a legislação trabalhista, previdenciária e
fiscal, muitas vezes desconhecidos pela administração, ficarão mais evidentes
podendo gerar multas e autuações, inclusive com relação ao período não
prescrito.
Diante de tais riscos,
manter a empresa em situação regular vai exigir fundamentalmente uma mudança de
cultura, não apenas dos profissionais de RH envolvidos diretamente na
manutenção dos processos de gestão de pessoas, mas também dos gestores – muitas
vezes responsáveis pelas informações relacionadas às obrigações incluídas no
eSocial – e até dos próprios empregados, que terão obrigação de comunicar
mudanças de endereço ou escolaridade, por exemplo.
É possível se estabelecer
controles e auditoria interna para garantir que todas as alterações relevantes
na vida funcional dos profissionais sejam reportadas tempestivamente, mas se
estes não forem desenhados de maneira inteligente podem custar caro e engessar
a operação. Nessas situações, normalmente o melhor caminho é desenvolver uma
cultura de conformidade.
O eSocial vai de fato
contribuir para diminuir a burocracia no envio de informações para as
autoridades, contudo a adequação à nova realidade exige investimento de tempo e
de recursos. Embora, como o governo ressalta, nenhuma obrigação nova esteja
sendo criada, nem todas as empresas conseguem atender as exigências da extensa
regulamentação do trabalho no Brasil. Diante da complexidade da regulamentação,
o eSocial tende a contribuir pouco para melhorar a competitividade e a
facilidade para fazer negócios no Brasil. No quesito gestão de pessoas, o país
figura entre os países com o maior número de exigências e maior custo para
contratar, manter e desligar um empregado – Doing Business, World Bank, 2013.
É imperativo que ao
assumir mais essa obrigação as empresas procurem modos inteligentes de fazê-lo,
redesenhando processos, capacitando empregados e gestores, mudando políticas,
procedimentos e posturas, para que o cumprimento pleno da regulamentação do
trabalho esteja alinhado ao seu modelo de negócios. É fundamental que a
adequação ao eSocial evite adicionar custos à cadeia de valor das empresas,
especialmente daquelas que atuam em setores cuja competitividade é inferior aos
padrões de desempenho internacional.
Fonte:
Legisweb/Valor Econômico
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