Para
sindicato de patrões, inclusão de direitos inviabilizará contratação de
empregadas domésticas; já a deputada Benedita da Silva, relatora da PEC 478/10,
diz que igualdade de direitos deve valorizar profissão
Relatora da proposta, a deputada
Benedita da Silva acredita que a aprovação da PEC terá um efeito contrário ao
esperado pela maioria dos empregadores. “A proposta não vai extinguir a
categoria. Ao garantir os direitos básicos dos trabalhadores para as
domésticas, muitas mulheres que haviam abandonado a profissão por não se
sentirem valorizadas e reconhecidas voltarão a atuar nesta função”, diz
Benedita.
Segundo a deputada, “a proposta não é
radical como muitos acreditam”. De acordo com ela, se a PEC for aprovada, ainda
será necessário regulamentar os direitos de forma que eles se acomodem à
categoria. “O mesmo aconteceu com os trabalhadores rurais, quando eles tiverem
seus direitos reconhecidos”, acrescenta Benedita, que prefere não fazer nenhuma
projeção sobre o aumento de custos para os empregadores. “Cabe ao Executivo
fazer essas contas”.
Professor da PUC, o advogado Ricardo
Guimarães diz que é complicado fazer um cálculo exato do aumento de custos sem
saber como deverá ser feita a regulamentação de cada um dos direitos. Mas,
considerando apenas a obrigatoriedade do pagamento de horas extras e adicional
noturno e o recolhimento do FGTS, ele estima que a aprovação da PEC poderá
aumentar os custos de se contratar uma empregada doméstica em até 45%.
Aumento de custos
Para exemplificar, ele usa como base
um salário de R$ 800. Se a profissional trabalhar duas horas a mais por dia –
das 8h às 19h, por exemplo - o empregador deverá pagar, por mês, mais R$
218,18. “Se essas horas extras acontecerem de maneira contínua, o valor
excedente deverá integrar ainda o cálculo de férias, 13º salário, FGTS e também
o INSS, o que poderá representar um aumento de até 45% sobre o valor
inicialmente acordado”, afirma.
Guimarães reconhece que esse é um
cálculo conservador, já que considera apenas alguns dos direitos que podem ser
assegurados às domésticas com a aprovação da PEC. Mas, segundo ele, ainda é
muito cedo para se fazer uma projeção exata dos custos.
A opinião é compartilhada pela
presidente do Sindicato das Empregadas Domésticas da Grande São Paulo, Eliana
Menezes. Otimista, ela acredita que a necessidade obrigará os patrões a
ajustarem o orçamento familiar a fim de manter suas empregadas.
Eliana tampouco acredita que a
aprovação da PEC levará as pessoas a terceirizarem o serviço doméstico – a
exemplo do que é feito em muitas empresas – ou a optarem por diaristas. “O
trabalho doméstico exige confiança. Ninguém vai deixar o filho ou a casa aos
cuidados de um profissional que nunca viu e que não vai voltar no dia
seguinte”.
Eliana usa a mesma linha de
raciocínio para descartar a hipótese de que as famílias brasileiras adotem o
costume dos americanos de empregar imigrantes ilegais, possibilidade que já
começa a soar interessante para alguns empregadores. “Não acredito que as
pessoas contratem imigrantes não registrados no país para cuidar de suas
famílias”, diz.
Orçamento familiar
Presidente do Sindicato dos Empregadores
Domésticos do Estado de São Paulo, Margareth Galvão Carbinato tem uma visão
completamente diferente sobre a PEC 478/10, que ela classifica como uma
proposta absurda. Para Margareth, a inclusão de tantos direitos tornará
inviável a contratação de uma empregada doméstica. “As empregadas domésticas
estão batendo palmas para a proposta hoje, mas vão chorar amanhã. É óbvio que
muitas serão demitidas”, afirma.
Ela contesta ainda pontos que deverão
gerar polêmica na regulamentação dos direitos, como o pagamento de horas
extras. “Como os patrões vão controlar o horário das empregadas? Quem garante
que as horas extras de trabalho não foram usadas para ver televisão, passear ou
falar ao telefone com as amigas?”, questiona.
A despeito de todas as polêmicas e
discussões que a aprovação da PEC possa gerar, o fato é que as famílias já
começam a se preparar para viver uma nova realidade. A professora Camila
Hartmann, que hoje conta com uma babá e uma empregada doméstica para cuidar dos
dois filhos pequenos enquanto ela e o marido trabalham, já está fazendo as
contas e reavaliando mudanças na rotina doméstica.
“Precisamos trabalhar fora e não
temos como contar com a ajuda de avós e parentes próximos para cuidar das
crianças. Enquanto for possível, vamos manter as duas profissionais que
trabalham em casa. Mas, se as despesas aumentarem muito, não descartamos a
possibilidade de dispensar a empregada ou a babá”, diz.
Carla Falcão, iG Rio
de Janeiro |
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